sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Mar de soja de um lado, de outro também

"Sim, eu gosto mesmo é de escrever sobre agricultura. De andar horas e horas por estradas de chão, aperta mãos sujas de graxa ou de terra, de conversar olhando nos olhos e fazer minha anotações com uma cuia de mate na mão esquerda.

Mate bom, aliás, é a especialidade dos Perciak".

Para a safra 2009/2010 opção é pela soja

Com rentabilidade no último ciclo, área plantada com leguminosa cresce

Gracieli Polak
CANOINHAS

Com o tempo bom e grande parte das sementes já no solo, a paisagem começa a mudar no campo. Aos poucos a safra 2009/2010 começa a ser “vista” no interior da região, mas refletindo o que acontece no restante das regiões produtivas do País, o predomínio, neste ciclo, será da soja. Mais de 22 milhões de hectares serão cultivados com a leguminosa que, com previsão climática boa para os próximos três meses, deverá superar recorde e atingir produtividade superior a 63 milhões de toneladas, quase a metade da produção total de grãos brasileira, estimada em 139 milhões de toneladas até o fim do ciclo, segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Na região, a julgar pelo comportamento dos agricultores, a situação se repete. Na manhã de quarta-feira, 11, os irmãos Sinésio, Luís César e Vitalino Perciak, da localidade do Salto d’Água Verde, faziam reparos nos maquinários enquanto a umidade trazida pela chuva do dia anterior não permitia o plantio de mais uma área. Para eles, segundo Sinésio, a alternativa é uma só: a soja.
Com a oleaginosa os irmãos pretendem ocupar cerca de 50 hectares de chão. Para não ficarem somente na soja, três hectares foram plantados com feijão, mas o volume nem chega a fazer sombra diante da principal cultura, que na propriedade deles não disputa espaço com o milho, caso de produtores maiores. “Para a gente não compensa, porque nós plantamos soja porque produz. O preço pode até não ser tão alto, mas em relação aos custos, é vantajoso”, argumenta Luís. A situação é semelhante a de Clemente Chuppel, que para esta safra, também se apóia nesse argumento para aumentar a área de soja. “O milho não tem compensado, por isto diminui a área”, relata.
Segundo Vitalino Perciak, o risco do milho é muito alto para compensar o preço pago hoje – cerca de R$ 18 a saca, enquanto a saca de soja valia, na cotação de ontem para Canoinhas, R$ 42. A lógica, no entanto, pode ser revertida.

MILHO DEVE VALORIZAR
Com a aposta na soja, a área plantada com milho na região deve ser menor. O resultado da safra menor do cereal deve gerar no mercado nacional, segundo especialistas no setor, uma valorização no preço do milho. Apostando nisso o agricultor Flávio Francisco Antonovicz manteve a área plantada com milho no ciclo anterior, mesmo enfrentando resistência dos filhos. “Aumentou um pouco a área da soja, mas eu preferi preservar uma parte com milho”, afirma. Ainda assim, dos 382 alqueires cultivados, 120 vão para milho, 20 para feijão e o restante, para a soja, revela o agricultor, que espera por uma safra farta, devido à previsão de chuva e umidade em níveis satisfatórios para o período de cultivo.

Novas fontes de biodiesel ficam nos experimentos

Lançado há quase cinco anos, o programa nacional de biodiesel como incentivo à agricultura familiar ainda não mostrou reflexos positivos para o setor. Quem comprova isso são os dados apresentados pelo Ministério de Minas e Energia. Segundo o órgão, em julho, a soja foi responsável por 78,7% de toda a produção de biodiesel no País, enquanto o sebo bovino foi a segunda matéria-prima mais utilizada (14,6%) e o óleo de algodão, a terceira (4,1%). De todo biodiesel produzido no Brasil, apenas 2,6% veio de outras fontes de outras fontes, como mamona, pinhão manso e girassol.
Para os Persiaki, que há dois anos tentaram o cultivo do girassol e foram visitados pela reportagem do CN, o maior desafio na cultura foi conseguir lucro na hora da comercialização, porque, segundo eles, na lavoura o produto rendeu. Para um grupo de agricultores que tentou o cultivo de pinhão manso em Canoinhas e Bela Vista do Toldo, o clima foi o entrave. “A ideia era muito boa, inclusive com resultados no campo experimental, mas a planta não resistiu à geada”, conta o vereador João Grein (PT), que mediou o plantio por meio do Sindicato dos Agricultores Familiares (Sintraf). As experiências na região e no restante do País revelam que o que falta para o projeto deslanchar ainda é a pesquisa.
De acordo o pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Gilcimar Adriano Vogt, o programa enfrenta dificuldades na região por diversos fatores, um deles bastante relevante, a pouca lucratividade. Outros pontos também dificultam em culturas como o girassol, porque, segundo ele, além de ainda não haver o costume – e, portanto o manejo adequado – das plantas, a rentabilidade é comprometida. “Para a região somente as culturas de inverno são atrativas e, ainda sim, é preciso bastante estudo”, defende.

Matéria veiculada hoje, 13 de novembro de 2009.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Para os mestres, mais que maçãs

Educadores falam sobre a profissão, que comemorou seu dia ontem

Gracieli Polak
CANOINHAS

Com os olhos altivos e um sorriso largo no rosto infantil, a estudante Claris Sampaio revela satisfeita o que quer ser quando crescer: professora, ou mais que isso. “Quero ser uma boa professora”, conta. O motivo para uma decisão tão firme já aos nove anos de idade? Os bons exemplos que teve.
Instituído por decreto federal em 1963, o Dia do Professor, 15 de outubro, bem poderia ser chamado de dia do exemplo ou dia do reconhecimento pelo trabalho prestado. Mas, ao invés de maçãs ou mimos, a recompensa esperada pelos queridos mestres é a aprendizagem de seus alunos, seja na alfabetização ou em qualquer outra etapa de suas vidas. Segundo o Ministério da Educação, o Brasil tem aproximadamente 3,5 milhões de professores. Em Santa Catarina, eles são mais de 65 mil e, com certeza, mais de um deles vêm à memória quando você lembra-se da época escolar. Para homenagear cada um destes educadores, o CN conversou com alguns profissionais com personalidades distintas, mas com uma característica comum, a paixão pelo ato de ensinar.

ATENÇÃO PARA OS PEQUENINOS
Voz calma, sorriso doce e a típica imagem da tia se revelam em Marciane Komochena, que desde criança sonhava em ser professora. Quando pequena, nas brincadeiras com os irmãos, era ela quem comandava a escolinha. A segunda dos oito filhos do pai que queria a filha professora, Marciane riscou suas primeiras lições com pedaços de carvão em tábuas e, alfabetizando os irmãos menores, descobriu que queria aquilo para sua vida, não somente para agradar ao pai. Correndo atrás do sonho, foi fazer Magistério. Logo, estava na sala de aula, entre os pequenininhos. “Me encanta poder acompanhar o início do aprendizado, o despertar do conhecimento, a maneira da criança pensar. É gratificante”, explica.
Para ela a escola é o prolongamento de sua casa e a relação construída com as crianças, familiar. Com quase vinte anos de experiência com a educação, a professora descobriu que sua vocação era, mesmo, ensinar os pequenos. “As crianças são honestas com a gente. Nessa fase eles não têm malícia, são verdadeiras em tudo”, ressalta. Muito tímida na adolescência, ela explica que perdeu a inibição de falar em público justamente por causa do contato com os alunos. Aprendeu com eles, ensinando. “A troca e o aprendizado diário fazem o trabalho valer a pena. Essa humanidade do nosso trabalho é o que mais encanta”, afirma.

DESAFIOS
Passada a fase dos primeiros aprendizados, os alunos crescem, a escola muda. Nesta escola movimentada com a agitação da adolescência, Ângela Maria S. da Silveira e Maria de Lourdes Maieski se encontraram na profissão. Por opção, as duas professoras lecionam Língua Portuguesa para alunos mais velhos e, com muitos anos de estrada pelo magistério, se reinventam para que cada nova turma tenha pleno aprendizado.“A geração de 10, 15 anos atrás era muito diferente da de hoje. Muita coisa mudou e para que se consiga atenção durante as aulas, é preciso estar atento às mudanças”, diz Ângela.
A professora, que se esforça para se tornar amiga dos alunos, no entanto, vê na modernidade o grande desafio da profissão, mas um desafio que só motiva a inovação. “Eu gosto de alterar a forma como passo um conteúdo, propor mudanças nas formas de avaliação, sempre dialogando com a tecnologia, que hoje faz parte da vida deles”, explica. Com 32 anos de trabalho, o conteúdo aplicado para os alunos também não é mais novidade para Maria de Lourdes, mas o mesmo não se pode dizer da forma de aplicá-los, tanto quanto os alunos. “Cada ano que se inicia também é uma novidade pra gente”, diz.
Do relacionamento com centenas de estudantes todo ano, dizem as professoras, sobra o reconhecimento. “É gratificante ver a evolução dos alunos. O aprendizado, o amadurecimento de cada um deles é uma vitória que faz valer algumas situações críticas”, avalia Ângela. “Muitos vão para a faculdade, crescem profissionalmente e, quando nos encontram na rua, vem cumprimentar. A gente não perde o rótulo de professora, mesmo depois de anos”, ressalta Maria de Lourdes.
Sem perder o título carinhoso, agora as professoras convivem com colegas que antes eram alunos. Situação estranha? Não, gratificante.

NOVA GERAÇÃO
Ativo, impaciente e empolgado, Cesar Daniel Damaceno Júnior, o professor Júnior, é um exemplo do fôlego que a profissão tem tomado nos últimos anos. Natural de Porto União, Júnior começou a lecionar durante a faculdade de Letras, mas não imaginava tamanha paixão pela profissão que exerce há quase sete anos. “Eu queria muito fazer Jornalismo, mas não consegui passar no vestibular e, por aptidão, optei por Letras. Agora eu tenho certeza que acertei na escolha”, diz.
Das aulas na faculdade para o posto de mestre, pouco tempo e muito empenho. Junior foi chamado para assumir uma disciplina em uma escola em São Pascoal, interior de Irineópolis. Resolveu enfrentar o desafio de frente e, diante de sua primeira turma, teve a prova de que deveria ser mesmo professor. “Quando eu coloquei os pés na sala de aula e senti toda a receptividade dos alunos, tive a certeza de que nasci pra fazer aquilo”, conta.
O acolhimento da comunidade escolar e da própria comunidade de São Pascoal, segundo o professor, foi imprescindível para que seu trabalho fosse realizado. Juntando sua velha paixão pelo jornalismo, Júnior desenvolveu um projeto específico para seus alunos, relacionando diversas formas de textos e gêneros. E este foi só um deles. Hoje já pós-graduado, a preparação para fazer a diferença dentro de sala de aula continua. Entre as aulas, projetos e duas novas pós-graduações, ele diz que sobra tempo para ser amigo dos alunos. “Eu me sinto realizado na minha profissão ao ponto de poder dizer para outras pessoas que se elas querem, elas devem lecionar. O salário é um problema mínimo diante da recompensa que o reconhecimento deles proporciona”, ressalta.

RECONHECIMENTO
Antiga reivindicação da classe, o pagamento de um salário justo pela função é citado por toda classe como o maior dos fatores negativos, que inclui ainda o desrespeito dentro de sala de aula. Desde janeiro de 2009, um piso nacional vigora no País para a categoria e instituiu o valor de R$ 950 por 40 horas de trabalho semanal. Sendo base, o valor norteia o pagamento mínimo que pode ser feito, aumentando com a titulação.

Você acha o salário justo? Entre no nosso site e responda a enquete.

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Matéria veiculda hoje, 16 de outubro de 2009.

Quem paga a conta?

"Mais uma vez, o Código. Não, desavisados, não é o Còdigo da Vinci. Este promete ainda dar mais assunto que o famoso livro daqueles que não curtem boa literatura".

Com prazo perto do fim, agricultores esperam por definição
A menos de dois meses da data limite para averbação da reserva legal poucos legalizaram área

Gracieli Polak
CANOINHAS

Cercada e preparada para o plantio, uma área agricultável na propriedade da família Lima, no Salto d’Água Verde, espera pacientemente que o mato tome conta e a transforme, novamente, em floresta. No temor de que terras usadas para agricultura tenham o mesmo destino que esta área, esperar é a palavra de ordem para os agricultores da região, a menos de dois meses do último prazo fixado pelo Ministério do Meio Ambiente para averbação da reserva legal.
Até 11 de dezembro todas as propriedades rurais devem registrar as áreas destinadas à reserva, que em algumas regiões, como a Amazônica, chega aos 80%, mas no caso de Santa Catarina está fixada em 20%. Separada das demais áreas usadas para agricultura, a reserva precisa ser fechada e livre de interferências externas, como a presença de gado. Exigida pela Lei, a medida traz preocupações para agricultores que aguardam pela aprovação do Código Ambiental de Santa Catarina, que entre outras medidas, propõe a incorporação de Áreas de Preservação Permanente (APPs) na reserva legal.
Para a agricultora Hilda Roesleir, que hoje aposentada apenas arrenda suas terras para que outros as cultivem, a averbação das áreas traz problemas não só para ela, mas para maioria dos pequenos produtores da região. “Muita gente não vai ter onde plantar. Quem tem terreno cortado por algum veio d’água simplesmente vai ter de parar de produzir”, lamenta Hilda. A preocupação da agricultora, dizem as entidades de classe, é fundamentada. Somente em Santa Catarina, 30 mil propriedades produtivas desaparecem se tiverem de se adequar às normas propostas no Código Florestal Brasileiro para averbação da reserva legal, segundo a Faesc.
Preocupante, a situação criou um embate histórico entre ruralistas e ambientalistas no País. No centro da disputa, a preservação de uma área que para alguns agricultores é, simplesmente, o lugar de onde tiram seu sustento, a mesma que para ambientalistas significa a conservação dos mananciais e do meio ambiente. Na espera pela decisão final sobre a Lei que vai reger o Estado, a decisão dos agricultores que ainda não legalizaram sua área de preservação é pela espera. Osnildo de Lima, que teve de averbar e perder uma área de plantio espera por uma decisão para registrar o restante da propriedade. “Não dá para arriscar fazer agora e depois perder. O jeito é torcer para que seja aprovada a melhor solução”, reclama.

FATMA ESPERA
Segundo o gerente da Fundação do Meio Ambiente (Fatma) de Canoinhas, Silmar Golanovski, a sensação de dúvida existente nos setores agrícolas em relação à adequação à Lei também existe no órgão, um dos responsáveis pela fiscalização ambiental. Além da Fatma, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Polícia Ambiental, fiscalizarão o cumprimento da norma, mas, no Estado, permanece o impasse. “As leis são feitas em Brasília ou em Florianópolis e tudo isso vem para a Fatma. Nós não fazemos as leis, não determinamos o que facilita ou o que complica a vida do agricultor, somente as aplicamos”, defendeu Golanovski. O gerente admite que haja ainda um impasse em relação ao Código, mas que, justamente por ter de fazer com que as normas sejam cumpridas no Estado, torce para que a situação seja abrandada. “É necessário preservar, mas é não é só o agricultor que deve pagar por isso. Todo mundo precisa fazer um pouco”, citando outro artigo polêmico do Código estadual. Pelo texto, o agricultor que preservar mais do que a área exigida pela Lei, deverá receber para manter mata intacta. “Todos devem pagar a conta, não somente os agricultores”, defende.

MAIS TEMPO
Prorrogado em dezembro do ano passado, o prazo definitivo, até o momento, para a legalização das áreas de preservação acaba em 11 de dezembro. A partir da data, os agricultores estarão sujeitos a autuações e multas que podem variar de acordo com a área irregular, mas, como a legislação prevê, ainda terão 120 dias para se adequar, caso o prazo não seja prorrogado novamente, situação não descartada pelo Ministério do Meio Ambiente.

Matéria veiculada hoje, 16 de outubro de 2009.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Educação nota 10?

O que falta para que nossa educação seja de qualidade?
MEC preconiza que escola deve ter média mínima 6 no Ideb; em Canoinhas, maior nota é 5,7

Gracieli Polak
CANOINHAS

Pelos critérios de avaliação do Ministério da Educação (MEC), nenhuma das escolas municipais ou estaduais do Ensino Fundamental de Canoinhas oferece aos seus alunos educação de qualidade. Segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), ainda falta muito para que o município, assim como o País, atinja a nota 6 na prova que avalia a qualidade do ensino na primeira etapa da vida escolar.
A informação de que a educação brasileira não é satisfatória não traz nenhuma novidade. Poucos colégios dos 5,5 mil municípios do País superam a nota estipulada pelo MEC e na região, somente o Centro Educacional Itaiópolis, de Itaiópolis, obteve nota maior que o 6 preconizado pelo ministério na avaliação realizada em 2007, embora a Escola de Educação Básica Sagrado Coração de Jesus esteja perto, com 5,7. Nas séries iniciais o Sagrado, junto com a Escola de Educação Básica João José de Souza Cabral, também tem a maior nota de Canoinhas, 5,4, mas ainda não chega lá. O CN conversou com os dirigentes das melhores e das piores escolas, segundo o índice do Ideb, e buscou respostas para explicar o problema.

SAGRADO E CABRAL, AS MELHORES
Boas estruturas, professores qualificados, projetos pedagógicos adequados ao desempenho dos alunos, interesse dos pais em participar da vida escolar dos filhos são fatores comuns nas duas escolas melhores colocadas. Gigantes no tamanho e na quantidade de alunos, Sagrado e Cabral hoje são referência na cidade, mas segundo o MEC, ainda precisam melhorar.
A diretora do Cabral, Maria Tereza Feger Olsen, administra a escola que abriga uma média de 800 alunos e credita o aumento na nota recebida à boa qualificação do colégio e também da comunidade escolar. “Não é só a prova: é todo um contexto”, defende, mas explica que ainda precisa melhorar. Nas condições da instituição, que tem absoluta maioria do quadro profissional efetivo, boa participação dos pais, professores atuando em sua área de formação específica e índice de desenvolvimento social razoável, segundo Maria Tereza, a obtenção da nota ideal no índice, para a diretora, será a consequência do trabalho realizado. “Estamos acima da média de Canoinhas, mas ainda estamos muito longe da média 7 que queremos alcançar”, conclui.
Para atingir esse patamar, o investimento dos profissionais no desenvolvimento e no respeito ao programa pedagógico e a atuação intensiva na educação dos estudantes são atividade constantes, segundo a diretora. Segundo a projeção do MEC, em 2013, o Cabral alcança a nota 6,1 nas séries iniciais.
Ainda neste ano, segundo a mesma projeção do MEC, o Sagrado chega à média 6, na avaliação que será realizada em dezembro e terá seus resultados divulgados no decorrer de 2010. A escola, que alcançou média 5,7 nas séries finais, nessa fase, no entanto, tem previsão de chegar à média 6 em 2015.

RODOLFO E GADZINSKI, OS PIORES
Situadas em bairros em que as desigualdades sociais são gritantes, com avanço crescente do uso de drogas e crescimento da violência, as últimas colocadas no índice compõem um quadro comum de dificuldades, concentradas principalmente na falta de perspectivas dos alunos.
Para a diretora da Escola de Educação Básica Rodolfo Zipperer, última colocada de 6.ª a 9.ª séries, Margareth Dambroski, uma série de fatores influenciou o resultado negativo obtido pela instituição, inclusive a visível falta de estrutura física do complexo estudantil, situação que se arrasta enquanto o novo prédio não é concluído. Segundo Margareth, fatores como a falta de perspectiva familiar e condições sócio-econômicas baixas, aliadas à criminalidade e ao aumento indiscriminado do consumo de drogas no bairro fazem com que o interesse dos alunos pelas questões escolares seja minimizado. Outro fator, avaliado pelo Ideb, a relação entre a série e a idade do estudante, no Rodolfo se traduz em distorção série idade. “Nós temos muitos alunos de 15 anos na 5.ª série, crianças que não estão na sua série ideal, mas que não tiveram condições de avançar”, conta.
No Grupo Escolar Municipal Frei Fabiano Gadzinski, pior desempenho de 1ª a 5.ª série, localizado no bairro Cristo Rei, a falta de perspectiva dos alunos se repete. Segundo a diretora da instituição, Luzíria de Barros Pereira Cordeiro, os problemas enfrentados pelos professores extravasam os limites das salas de aula, porque o desempenho fraco de grande parte dos estudantes são questões estruturais, familiares na maioria das situações. “Muitas crianças não são motivadas a estudar. Falta incentivo dentro de casa e, sem perspectivas, o trabalho também fica difícil”, explica.
Localizada em um dos bairros mais pobres de Canoinhas, a situação sócioeconômica da região, segundo a diretora, é uma agravante da situação, porque as crianças não conseguem ter um nível aceitável de concentração nas aulas, o que provoca o desencadeamento dos outros problemas, como a distorção série idade, situação constatada no Rodolfo. Outro fator enfatizado pelas profissionais é a falta de participação dos pais, elemento fundamental para obtenção do bom desempenho das melhores colocadas. “Tem criança que leva tema para casa, mas a mãe nem se preocupa em olhar o que a criança faz. Além disso, há muita desigualdade e exclusão social, porque para muitos a escola serve apenas para conseguir os benefícios do Governo”, diz Maria de Lourdes Lemos, orientadora pedagógica da instituição.

ESTRATÉGIAS DE MELHORIA?
Aliar poder público ao desenvolvimento dos estudantes tem sido a estratégia adotada pelas escolas em piores condições para melhorar a qualidade do ensino. Na Frei Fabiano, uma parceria com o CRAS 2, que atende à região, pretende trabalhar com as famílias para que haja maior incentivo à educação dos filhos. “O trabalho agora é de fora para dentro. Somente as quatro horas que eles passam na escola não fazem milagres”, esclarece Luzíria. No Rodolfo, estratégias parecidas se repetem. “Com certeza o índice baixo não é por causa dos professores ou por falta de investimento na educação, mas o meio influencia muito”, analisa Roseli de Fátima Schivinski, professora que atua provisoriamente no apoio pedagógico na escola.
Segundo ela, alguns projetos são desenvolvidos na escola justamente para criar uma identidade otimista nos alunos, principalmente pela situação de degradação que o colégio enfrenta. Esperada para o ano que vem, a inauguração do novo prédio traz esperança para os profissionais, que ainda querem transformar o “caldeirão Rodolfo” em uma escola modelo. Na projeção do MEC, somente em 2021 a escola alcançará a média 5,1, ainda longe de ser qualificada.
A gerente de Educação da 26.ª Secretaria de Desenvolvimento Regional (SDR), Francisca Maiorki explica que todas as escolas recebem tratamento igual e os fatores apontados pelas diretoras, como os índices sócioeconômicos baixos são, sim, determinantes para a diminuição do índice. “As escolas com rendimento baixo estão recebendo capacitação específica para melhorar a qualidade, principalmente tentando mobilizar a comunidade em que está inserida”, diz.
Para Francisca, em relação à média nacional, o índice alcançado por Canoinhas é satisfatório, mas ainda tem muito para melhorar. A média brasileira no Ideb 2007 foi de 4,2. A projeção para o País é de que em 2022 a média seja 6, considerada satisfatória.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Tempo fechado!




Possível tornado provoca devastação no interior
Pinheiros foram arrancados; madeira deve ser legalizada, diz Fatma

Gracieli Polak
CANOINHAS

O encontro de duas massas de ar diferentes causou a mudança radical no clima que atingiu o Estado desde o domingo, 6, segundo o Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina (Ciram). Além da chuva forte, no interior de Canoinhas, o vento assustou e deu trabalho aos moradores, que, graças ao período de entre safra, não tiveram muitos prejuízos, mas viram destruição em áreas de mata.
Na propriedade de Írio Dranka, no Salto d’Água Verde, a tormenta da madrugada de terça-feira, 8, que provocou a morte de quatro pessoas em Guaraciaba, no Oeste de SC, deixou 1 milhão de pessoas sem energia elétrica, além de 45 cidades com 340 mil casas danificadas, deixou ainda devastação na mata nativa do agricultor. Inúmeras árvores tiveram copas e galhos arrancados, mas a violência do vendaval ficou mais evidente com os estragos sofrido pelas araucárias da propriedade. “Nove pinheiros foram para o chão. Cinco perderam a copa e outros quatro foram arrancados pela raiz”, conta o agricultor. Dranka suspeita que um tornado tenha passado pelas suas terras, porque algumas árvores que perderam galhos estavam retorcidas em várias direções. “O vento veio de todos os lados, então isso pode ter sido um tornado”, acredita.
De acordo com o Ciram, é necessário fazer uma vistoria para comprovar o fenômeno, mas, devido ao grande número de cidades atingidas, este trabalho não é ágil. “No entanto, existem evidências de que o fenômeno pode ter atingido a região. Em alguns locais somente imagens já podem confirmar a ocorrência do fenômeno” diz a meteorologista Laura Rodrigues.

NA REGIÃO
Em Três Barras, de acordo com informações do Corpo de Bombeiros, houve apenas duas ocorrências registradas, para retirada de árvores da pista. Em Bela Vista do Toldo, o fenômeno destelhou algumas casas, mas os prejuízos maiores foram na zona rural, devido às árvores caídas na rede de energia elétrica do município. Até a tarde de ontem, algumas comunidades ainda estavam sem energia.
Monte Castelo teve 270 edificações atingidas, com pelos menos dois feridos, sendo uma vítima de infarto e 40 desalojados.
Para quem teve árvores nativas arrancadas em sua propriedade a gerência regional da Fundação do Meio Ambiente (Fatma) faz um alerta: é preciso regularizar a madeira para poder utilizá-la. “É preciso que eles regularizem a situação, até mesmo porque o transporte até uma serraria, por exemplo, precisa estar documentado”, esclarece a bióloga Mariane Murakami da Silva.
A Fatma, segundo Mariane, está recebendo inúmeros pedidos de informação sobre a regularização desde terça-feira, mas para que os proprietários possam aproveitar a madeira, obrigatoriamente, devem entrar com projeto junto ao órgão.

NÍVEL NORMAL
A chuva deixa as comunidades ribeirinhas apreensivas. A altura do rio Canoinhas, segundo informações do 9.º Batalhão de Bombeiros, ainda não é preocupante. Medição realizada ontem à tarde constatou que o nível de água é de aproximadamente 4,4 m. Quando atinge 5,7 m a situação começa a preocupar.
Entre segunda-feira, 7, e ontem, a estação meteorológica de Major Vieira, registrou choveu 109 milímetros. O volume só é menor que o registrado em Urubici, no Planalto Sul, e Rio do Oeste, no Alto Vale do Itajaí.

Tempo deve permanecer instável no final de semana
Chuva permanece e risco de ventos fortes persiste: comunidades ainda estão sem luz

Oficialmente em situação de emergência, Canoinhas ainda conta os prejuízos causados pela forte chuva da madrugada de terça-feira, 8. Segundo dados oficiais da Defesa Civil do Estado, 310 edificações foram afetadas em Canoinhas e o município espera o reconhecimento do decreto para receber ajuda do Governo do Estado. “Cerca de 150 pessoas nos procuraram para receber ajuda, como lonas para cobrir as residências”, afirma Felipe Davet, coordenador da Defesa Civil no município.
Em decorrência do vendaval, o Corpo de Bombeiros também recebeu pedidos para atender a mais de 40 casos, mas, na maioria das chamadas, o auxílio era prestado também para os vizinhos, por isso, de acordo com a entidade, não foi possível precisar a quantidade exata de pessoas atingidas. Quatro dias depois do fenômeno, de acordo com Davet, a situação agora é estável, agravada apenas pela falta de energia elétrica nas residências do interior do município.

SITUAÇÃO CRÍTICA
Em toda a região, até a tarde de ontem os problemas com falta de energia elétrica persistiam. Segundo o chefe da agência de Canoinhas da Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc), Osvaldo Roberto Romanowski, a situação é crítica, porque os estragos provocados pelo temporal ainda são incalculáveis. “Estamos trabalhando em 10 equipes, praticamente sem parar, e não conseguimos arrumar tudo”, diz.
Romanowski conta que mais de 30 postes foram arrancados e a quantidade de fios atingidos por galhos de árvores não pode ser precisada. Em algumas comunidades do interior, como Serra das Mortes, Barra Mansa e Rio d’Areia a energia ainda não foi restabelecida. “Se o problema tivesse acontecido somente aqui, nós teríamos reforços, mas como aconteceu em toda a região, falta pessoal para fazer o conserto”, explica. Diante da situação, o alerta para que as pessoas não se encostem a fios caídos permanece. “Pode ter corrente elétrica, então é perigoso. Não queremos nenhum acidente deste tipo”, esclarece.

O QUE ESPERAR DO TEMPO?
A chuva que cai sem cessar desde o domingo, 6, promete mais uma vez aparecer durante o final de semana na região. De acordo com previsão divulgada pelo Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina (Ciram) uma leve melhora poderá ser sentida hoje na região, quando as precipitações serão intercaladas com momentos em que o sol aparecerá. Amanhã e no domingo, 13, no entanto, o tempo fecha mais uma vez, mas os fenômenos previstos para estes dias são menos dramáticos que os enfrentados no começo da semana.
As temperaturas amanhã oscilam entre 13 e 19° C, com rajadas de vento que podem chegar aos 30 Km/h, com chuva durante o dia todo. Para o domingo, a oscilação é maior, entre 11 e 22° C, e no início e no final do dia o sol poderá aparecer. Com precipitação acima de média no mês de agosto e também maior que a expectativa neste começo de outubro, a instabilidade é preocupante na região (acompanhe previsão para próximos meses ao lado).

Matérias veiculadas hoje, 11 de setembro de 2009.

Correio do Norte

Quem lê, sabe.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Elas querem espaço!






Na construção civil mercado é aberto aos poucos; nos cursos acadêmicos de exatas, presença ainda é reduzida

Gracieli Polak
CANOINHAS

Passar pela frente de uma obra pode não ser mais uma tarefa tortuosa para as mulheres. Isso porque, aos poucos, a construção civil tem se aberto para profissionais do sexo feminino e mudando um conceito antigo da sociedade. Agora, obra é lugar de mulher sim, inclusive em Canoinhas.

Nas construções da cidade uma tendência surgida no Rio de Janeiro aparece com força e muda o cenário, antes somente masculino. Na capital carioca, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) lançou um curso específico para formar mulheres para trabalhar em diversas áreas da construção civil e promove sua incursão no mercado de trabalho. Em Canoinhas elas se aventuram no ramo buscando conhecimento por conta própria, enquanto uma nova geração busca espaço nas cadeiras de cursos universitários historicamente masculinos, como engenharia.

No meio do universo de trabalho masculino, mesmo em meio às dificuldades de adaptação e reconhecimento dos colegas, de uma coisa elas têm certeza: “com competência, seu lugar se garante, independente do sexo”.

A CHEFE DA OBRA
Com um sorriso no rosto e um capacete na cabeça, a contramestre das obras do Instituto Federal de Santa Catarina comanda mais de 50 homens e coordena o trabalho na construção grandiosa empreendida no bairro Campo d’Água Verde, que em poucos meses abrigará centenas de estudantes. Aos 33 anos de idade, Mariléia Vieira Domingos se prepara para ser mestre de obras na construtora em que trabalha há dois anos e, na hierarquia do local de trabalho, só tem um subordinado. “Eu mando nessa obra”, fala, empolgada.
Enfermeira por formação, Mariléia não se encontrou profissionalmente em sua área e, entre um emprego e outro, no comércio ou no varejo, acabou na construtora. “Eu comecei a trabalhar como zeladora. Em três meses eu já era apontadora da obra”, conta. Curiosa e interessada pelos problemas do trabalho, ela começou a ganhar espaço e, com o surgimento da construção em Canoinhas, foi convidada para vir para a cidade, com o propósito claro de ser preparada para se tornar a única mestre de obras da construtora. “Quando surgiu a oportunidade de vir para Canoinhas, como contramestre, eu aceitei na hora. É uma ótima oportunidade de crescer no ramo”, explica.
A contramestre, que nunca pensou em trabalhar nesta área, afirma que, no entanto, a adaptação dos homens à chefia feminina não foi tão rápida como sua ascensão profissional, fator responsável por algumas situações incômodas na profissão. “Foi preciso ter muita força de vontade, porque homem já é um tipo complicado. Peão de obra, então, é mais ainda, mas foi preciso me impor. Hoje eu tenho uma equipe formada, que respeita meu trabalho e meu comando”, diz.

VAIDADE?
Sempre de capacete ou de boné, uniforme da empresa e sapatões que contrastam radicalmente com uma das paixões femininas, vaidade na profissão de Mariléia é um artigo de luxo, que ainda afasta muitas mulheres do trabalho pesado, de sol a sol. “Eu queria montar uma equipe só de mulheres aqui em Canoinhas. Cheguei a entrevistar várias, mas quando a realidade aparece, muitas caem fora. O capacete, a botina, a roupa suja ainda assustam”, diz. Ainda assim, na construção do IFSC há duas mulheres sob seu comando: uma apontadora e uma ajudante de pedreiro.

Ainda que no uniforme da obra, “mulher é sempre mulher” e por isso, todo pequeno cuidado não é frescura. “Protetor solar tem de passar sempre e de vez em quando, também um cremezinho. Durante a semana eu não sei ficar sem um boné na cabeça, mas durante as folgas isso muda”, revela Mariléia, que pretende voltar a estudar para crescer ainda mais na profissão. Em breve, assim que a obra em Canoinhas terminar, ela volta para Joinville, onde mora, e começa um curso técnico em Edificação, ou a faculdade de Engenharia Civil. “Não saio mais daqui não. O meu trabalho agora é na obra, só preciso me aprimorar sempre”, conclui.

PRESENÇA REDUZIDA
Com mercado sempre garantido, a carreira universitária nas profissões consideradas masculinas passa a ser considerada por um número cada vez maior de mulheres, mas ainda com restrições: mulheres ainda são unanimidade em algumas áreas da saúde, como Enfermagem, Nutrição e Psicologia, aonde a proporção feminina chega a 100% nas universidades.

Micheli Seleme é uma das poucas mulheres que passam pelas salas de aula dos cursos de exatas das universidades brasileiras. Formanda do curso de Engenharia de Telecomunicações da Universidade do Contestado (UnC), ela é a primeira mulher a se formar no curso em Canoinhas e, na sala repleta de homens, apenas mais duas mulheres a fazem companhia. O interesse pela área surgiu ainda no colégio, quando os celulares começaram a se popularizar e a internet também começou a ganhar corpo no País. “Eu sempre fui muito curiosa e queria saber o que estava por trás das coisas, como tudo funcionava”, diz.

Aos 16 anos, Micheli entrou na faculdade de engenharia e teve de batalhar por seu espaço em meio à maioria absoluta de homens. “No começo eu tive resistência mesmo dentro do curso, mas com o tempo a situação melhorou e hoje não existe mais”. Com mercado de trabalho aberto para a profissão, Micheli pretende arriscar construir uma carreira em uma cidade maior, com uma resposta pronta para quem demonstrar preconceito contra a “invasão” feminina. “Se você mostrar competência, independente de ser homem ou mulher, você vai ser reconhecido”.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), independente de executar as mesmas funções que os homens, as mulheres ainda recebem cerca de 10 % a menos que os colegas do sexo masculino.

Matéria veiculada hoje, 28 de agosto de 2009.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Passado. Presente... Futuro?

"O plano era sair sem rumo com meu colega, como já fizemos uma vez (ou duas, quem sabe três). Mas, como quase tudo que a gente planeja, não deu certo.
E como quem não tem cão caça em Bela Vista..."

De colonos a empreendedores rurais

Evolução agrícola foi rápida, valorização do agricultor nem tanto; Passado, presente e futuro da base do Brasil falam sobre a vida no campo

Gracieli Polak
BELA VISTA DO TOLDO/CANOINHAS

“Antes quem trabalhava no campo era chamado de colono. Hoje nós somos chamados de agricultores, mas, estamos em busca de um dia nos tornarmos empreendedores rurais. Esse é o futuro de quem trabalha na roça: adquirir conhecimento, melhorar sua produção, aumentar sua qualidade de vida, ser um empreendedor dentro de sua propriedade”, defende o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Canoinhas, Edmar Padilha, ao falar da classe que defende e que amanhã, 25 de julho, comemora seu dia.
Da capoeira cortada a facão à utilização de implementos que preparam a terra do preparo à colheita, cerca de três gerações de colonos, agricultores ou empreendedores rurais produziram grande parte das riquezas do Planalto Norte. Entre as extensas plantações de soja e de milho e as pequenas, mas numerosas, lavouras de fumo, 23% da população da região se mantém no campo e alimenta não só um dos segmentos mais rentáveis da economia da região, mas também a mesa de uma população ainda maior. Com maquinário e tecnologia avançados, a tendência, segundo especialistas no assunto, é que a agricultura brasileira seja ainda mais representativa no mundo, com produções recordes e melhor aproveitamento do solo, no entanto, nas projeções de mercado, a figura do agricultor ainda é negligenciada. Mas é no campo, no suor da lida diária, que os alimentos presentes na mesa dos brasileiros são produzidos há séculos.

PASSADO EDIFICANTE
“Não tem explicação o quanto era diferente do que é hoje. Essa nossa luta na lavoura era muito custosa”, diz o agricultor aposentado Porfírio Iarrocheski, morador da localidade de Rio Bonito da Imbuia, interior de Bela Vista do Toldo. Aos 74 anos de idade, “quase isso de lavoura”, o agricultor viu crescer e se desenvolver seu ramo de atividade e, ao lembrar o trabalho naquela época o “contador de causos” é capaz até de fazer duvidar jovens acostumados com as facilidades da atualidade.
Iarrocheski conta que na primeira vez que veio para Canoinhas, aos 11 anos de idade, acompanhou o irmão que trouxe uma “carrada” de erva-mate para comercializar na cidade. Na viagem que durou um dia para a ida e outro para a volta, muitas novidades assustaram o jovem colono, como o rádio, que o deixou chocado. “Mas eu levei um susto, parei e perguntei para o meu irmão o que que era aquilo. Não sabia que existia”, se diverte.
A erva produzida artesanalmente em carijos e barbacuás, as lavouras consorciadas, com o feijão malhado a cambau (em uma lona no chão, com varas), o trabalho de dias ou até semanas para a plantação de um único hectare de terra eram realidade na região, interligada com Canoinhas por uma estrada aberta a enxadão pelos colonos. “Ás vezes chegava a juntar de 50 a 60 carroceiros no mercado. Ninguém aqui tinha condução, nem mesmo os mais abonados. Se precisava ir até algum lugar ia de cavalo ou carroça, não era fácil como é hoje”, explica, mas defende. “Dava um trabalho desgraçado, mas não era ruim não. Aquele era o tempo da erva boa e a gente sempre colhia bastante, muita abóbora no meio do milho”, relembra.
Aposentado desde que completou 60 anos de idade, Iarrocheski foi diminuindo o ritmo de seu trabalho. Do passado sofrido no tempo que o cultivo da terra era artesanal, para o colono, sobrou muito orgulho de sua luta e o gosto pelo cultivo e pelo cuidado. “Para quem gosta de criação, o berro de uma vaca é uma alegria. Não tem explicação, mas com a idade, fica mais difícil administrar tudo”, diz. Criado no trabalho braçal, o agricultor passou a vida entre arados e implementos puxados a tração animal e hoje, com a idade mais avançada, arrenda suas terras para os agricultores. Mas o tema recorrente de suas conversas é o trabalho no campo, como o realizado pelo amigo José Oldemar Ossowski.

PRESENTE CONSOLIDADO
De aparência tranqüila e com olhar voltado para suas terras, Ossowski, que produz soja, milho, feijão, fumo, leite e gado de corte pertence a uma geração diferente da de Iarrocheski, mas partilha muitas discussões com o antigo agricultor. Morador da comunidade de Lagoa do Sul, Ossowski começou a trabalhar na terra também bastante jovem e aprendeu a plantar usando arados a cavalos, até que, aos poucos, o maquinário começou a ser adquirido. Desde a aquisição das máquinas, segundo ele, o trabalho ficou menos árduo, mas isto não significou grande facilidade para cultivar as lavouras. “É claro que diminui o trabalho, o tempo de plantio, mas trouxe novas preocupações. Hoje o agricultor tem de ter conhecimento para trabalhar com as máquinas, com agrotóxico, com adubos. Tem de se aprimorar e ainda torcer para que seu trabalho seja valorizado”, ressalta.
Da mesma geração de Ossowski, o agricultor Arnaldo Mielke também conheceu duas etapas distintas da produção agrícola da região. Enquanto jovem, o trabalho foi no cabo da enxada. De uns anos para cá, as máquinas ocuparam seu espaço no campo. Na localidade de Rio d’Areia de Cima ele planta fumo, milho, feijão, além de produzir leite, e sente a diferença na evolução de sua profissão, mas não o suficiente para fazer com que deseje que o filho, Aurélio, siga o mesmo caminho que o dele. “Hoje o fato de você ter trator e implementos facilita muito em algumas culturas, mas, nas pequenas propriedades, o trabalho ainda é braçal, como no caso do fumo. E muitas vezes não compensa, porque o custo é muito alto para pouco retorno”, afirma.
Vindo de uma família com 11 irmãos, Arnaldo foi um dos quatro que permaneceram na mesma profissão dos pais e agora, para o filho único, espera “uma profissão melhor”, segundo ele, com maior autonomia. “Na hora de comprar adubo o preço é imposto, você tem de pagar, mas na hora de vender o produto, quem escolhe o preço é o comprador. A gente fica nas mãos dos outros e eu não quero isso para ele”, esclarece.

DE OLHO NO FUTURO
Aurélio Miguel Mielke, de 17 anos, filho de Arnaldo, pretende permanecer na agricultura, mesmo que o pai não concorde completamente com sua decisão. Familiarizado com o trabalho rural desde pequeno, Aurélio conheceu a lida de uma maneira bem diferente da que do pai e embora o cultivo de fumo ainda demande uma grande carga de trabalho manual, a mecanização na propriedade dos Mielke acontece de larga data. Para se especializar no cuidado da propriedade que um dia será sua e para atender aos desejos do pai, Aurélio pretende cursar Agronomia ou Medicina Veterinária, mas não agora. “Eu não quero fazer vestibular agora, sair de casa. Acho que um pouco mais para a frente eu posso fazer isso”, conta. Mas nem todos os jovens da mesma comunidade pensam assim e grande parte não quer permanecer na agricultura, como o primo de Aurélio, Everton Renam Mielke. “Eu não quero ficar plantando fumo não. Quero estudar e ter uma outra profissão, mais valorizada”, explica.

QUE FUTURO?
Em meio à alta demanda de jovens que largam a agricultura para viver na cidade, o questionamento em relação ao futuro é pertinente, mas não desanimador. Para as entidades de classe, ele está nas mãos dos jovens agricultores interessados em uma nova forma de produção: a empreendedora. “Estudos mostram que agricultores com condições melhores dão mais perspectivas para os jovens permanecerem no campo, o que faz com que haja melhoria na produção, na qualidade de vida, e que cada vez mais jovens desejem permanecer no meio rural”, fala o pesquisador Milton Luis Silvestro, da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri).
Para Silvestro o grande problema da evasão do jovem do campo está entre a vontade de permanecer e a construção de um futuro na agricultura. “Faltam políticas públicas para fortalecer a profissão, para dar melhores condições de vida e rentabilidade”, defende.
Atuando nesta linha, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) promove cursos estimulando a formação de empreendedores rurais para agregar mais valor aos produtos rurais. Em Canoinhas, as aulas começaram em junho e criam um novo horizonte para o setor, já percebido pelos agricultores, como Ossowski. “O futuro está na transformação do colono em empreendedor rural. Um litro de leite é vendido aqui na propriedade por R$ 0,50, enquanto um quilo de queijo, que leva aproximadamente seis litros de leite para ser feito custa bem mais, como eu comprovei comprando esses dias em uma associação de produtores. Beneficiar faz com que o produto agregue renda e este deve ser o futuro da agricultura familiar”, defende.

Matéria veiculada na sexta-feira, 24 de julho.