terça-feira, 22 de setembro de 2009

Educação nota 10?

O que falta para que nossa educação seja de qualidade?
MEC preconiza que escola deve ter média mínima 6 no Ideb; em Canoinhas, maior nota é 5,7

Gracieli Polak
CANOINHAS

Pelos critérios de avaliação do Ministério da Educação (MEC), nenhuma das escolas municipais ou estaduais do Ensino Fundamental de Canoinhas oferece aos seus alunos educação de qualidade. Segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), ainda falta muito para que o município, assim como o País, atinja a nota 6 na prova que avalia a qualidade do ensino na primeira etapa da vida escolar.
A informação de que a educação brasileira não é satisfatória não traz nenhuma novidade. Poucos colégios dos 5,5 mil municípios do País superam a nota estipulada pelo MEC e na região, somente o Centro Educacional Itaiópolis, de Itaiópolis, obteve nota maior que o 6 preconizado pelo ministério na avaliação realizada em 2007, embora a Escola de Educação Básica Sagrado Coração de Jesus esteja perto, com 5,7. Nas séries iniciais o Sagrado, junto com a Escola de Educação Básica João José de Souza Cabral, também tem a maior nota de Canoinhas, 5,4, mas ainda não chega lá. O CN conversou com os dirigentes das melhores e das piores escolas, segundo o índice do Ideb, e buscou respostas para explicar o problema.

SAGRADO E CABRAL, AS MELHORES
Boas estruturas, professores qualificados, projetos pedagógicos adequados ao desempenho dos alunos, interesse dos pais em participar da vida escolar dos filhos são fatores comuns nas duas escolas melhores colocadas. Gigantes no tamanho e na quantidade de alunos, Sagrado e Cabral hoje são referência na cidade, mas segundo o MEC, ainda precisam melhorar.
A diretora do Cabral, Maria Tereza Feger Olsen, administra a escola que abriga uma média de 800 alunos e credita o aumento na nota recebida à boa qualificação do colégio e também da comunidade escolar. “Não é só a prova: é todo um contexto”, defende, mas explica que ainda precisa melhorar. Nas condições da instituição, que tem absoluta maioria do quadro profissional efetivo, boa participação dos pais, professores atuando em sua área de formação específica e índice de desenvolvimento social razoável, segundo Maria Tereza, a obtenção da nota ideal no índice, para a diretora, será a consequência do trabalho realizado. “Estamos acima da média de Canoinhas, mas ainda estamos muito longe da média 7 que queremos alcançar”, conclui.
Para atingir esse patamar, o investimento dos profissionais no desenvolvimento e no respeito ao programa pedagógico e a atuação intensiva na educação dos estudantes são atividade constantes, segundo a diretora. Segundo a projeção do MEC, em 2013, o Cabral alcança a nota 6,1 nas séries iniciais.
Ainda neste ano, segundo a mesma projeção do MEC, o Sagrado chega à média 6, na avaliação que será realizada em dezembro e terá seus resultados divulgados no decorrer de 2010. A escola, que alcançou média 5,7 nas séries finais, nessa fase, no entanto, tem previsão de chegar à média 6 em 2015.

RODOLFO E GADZINSKI, OS PIORES
Situadas em bairros em que as desigualdades sociais são gritantes, com avanço crescente do uso de drogas e crescimento da violência, as últimas colocadas no índice compõem um quadro comum de dificuldades, concentradas principalmente na falta de perspectivas dos alunos.
Para a diretora da Escola de Educação Básica Rodolfo Zipperer, última colocada de 6.ª a 9.ª séries, Margareth Dambroski, uma série de fatores influenciou o resultado negativo obtido pela instituição, inclusive a visível falta de estrutura física do complexo estudantil, situação que se arrasta enquanto o novo prédio não é concluído. Segundo Margareth, fatores como a falta de perspectiva familiar e condições sócio-econômicas baixas, aliadas à criminalidade e ao aumento indiscriminado do consumo de drogas no bairro fazem com que o interesse dos alunos pelas questões escolares seja minimizado. Outro fator, avaliado pelo Ideb, a relação entre a série e a idade do estudante, no Rodolfo se traduz em distorção série idade. “Nós temos muitos alunos de 15 anos na 5.ª série, crianças que não estão na sua série ideal, mas que não tiveram condições de avançar”, conta.
No Grupo Escolar Municipal Frei Fabiano Gadzinski, pior desempenho de 1ª a 5.ª série, localizado no bairro Cristo Rei, a falta de perspectiva dos alunos se repete. Segundo a diretora da instituição, Luzíria de Barros Pereira Cordeiro, os problemas enfrentados pelos professores extravasam os limites das salas de aula, porque o desempenho fraco de grande parte dos estudantes são questões estruturais, familiares na maioria das situações. “Muitas crianças não são motivadas a estudar. Falta incentivo dentro de casa e, sem perspectivas, o trabalho também fica difícil”, explica.
Localizada em um dos bairros mais pobres de Canoinhas, a situação sócioeconômica da região, segundo a diretora, é uma agravante da situação, porque as crianças não conseguem ter um nível aceitável de concentração nas aulas, o que provoca o desencadeamento dos outros problemas, como a distorção série idade, situação constatada no Rodolfo. Outro fator enfatizado pelas profissionais é a falta de participação dos pais, elemento fundamental para obtenção do bom desempenho das melhores colocadas. “Tem criança que leva tema para casa, mas a mãe nem se preocupa em olhar o que a criança faz. Além disso, há muita desigualdade e exclusão social, porque para muitos a escola serve apenas para conseguir os benefícios do Governo”, diz Maria de Lourdes Lemos, orientadora pedagógica da instituição.

ESTRATÉGIAS DE MELHORIA?
Aliar poder público ao desenvolvimento dos estudantes tem sido a estratégia adotada pelas escolas em piores condições para melhorar a qualidade do ensino. Na Frei Fabiano, uma parceria com o CRAS 2, que atende à região, pretende trabalhar com as famílias para que haja maior incentivo à educação dos filhos. “O trabalho agora é de fora para dentro. Somente as quatro horas que eles passam na escola não fazem milagres”, esclarece Luzíria. No Rodolfo, estratégias parecidas se repetem. “Com certeza o índice baixo não é por causa dos professores ou por falta de investimento na educação, mas o meio influencia muito”, analisa Roseli de Fátima Schivinski, professora que atua provisoriamente no apoio pedagógico na escola.
Segundo ela, alguns projetos são desenvolvidos na escola justamente para criar uma identidade otimista nos alunos, principalmente pela situação de degradação que o colégio enfrenta. Esperada para o ano que vem, a inauguração do novo prédio traz esperança para os profissionais, que ainda querem transformar o “caldeirão Rodolfo” em uma escola modelo. Na projeção do MEC, somente em 2021 a escola alcançará a média 5,1, ainda longe de ser qualificada.
A gerente de Educação da 26.ª Secretaria de Desenvolvimento Regional (SDR), Francisca Maiorki explica que todas as escolas recebem tratamento igual e os fatores apontados pelas diretoras, como os índices sócioeconômicos baixos são, sim, determinantes para a diminuição do índice. “As escolas com rendimento baixo estão recebendo capacitação específica para melhorar a qualidade, principalmente tentando mobilizar a comunidade em que está inserida”, diz.
Para Francisca, em relação à média nacional, o índice alcançado por Canoinhas é satisfatório, mas ainda tem muito para melhorar. A média brasileira no Ideb 2007 foi de 4,2. A projeção para o País é de que em 2022 a média seja 6, considerada satisfatória.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Tempo fechado!




Possível tornado provoca devastação no interior
Pinheiros foram arrancados; madeira deve ser legalizada, diz Fatma

Gracieli Polak
CANOINHAS

O encontro de duas massas de ar diferentes causou a mudança radical no clima que atingiu o Estado desde o domingo, 6, segundo o Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina (Ciram). Além da chuva forte, no interior de Canoinhas, o vento assustou e deu trabalho aos moradores, que, graças ao período de entre safra, não tiveram muitos prejuízos, mas viram destruição em áreas de mata.
Na propriedade de Írio Dranka, no Salto d’Água Verde, a tormenta da madrugada de terça-feira, 8, que provocou a morte de quatro pessoas em Guaraciaba, no Oeste de SC, deixou 1 milhão de pessoas sem energia elétrica, além de 45 cidades com 340 mil casas danificadas, deixou ainda devastação na mata nativa do agricultor. Inúmeras árvores tiveram copas e galhos arrancados, mas a violência do vendaval ficou mais evidente com os estragos sofrido pelas araucárias da propriedade. “Nove pinheiros foram para o chão. Cinco perderam a copa e outros quatro foram arrancados pela raiz”, conta o agricultor. Dranka suspeita que um tornado tenha passado pelas suas terras, porque algumas árvores que perderam galhos estavam retorcidas em várias direções. “O vento veio de todos os lados, então isso pode ter sido um tornado”, acredita.
De acordo com o Ciram, é necessário fazer uma vistoria para comprovar o fenômeno, mas, devido ao grande número de cidades atingidas, este trabalho não é ágil. “No entanto, existem evidências de que o fenômeno pode ter atingido a região. Em alguns locais somente imagens já podem confirmar a ocorrência do fenômeno” diz a meteorologista Laura Rodrigues.

NA REGIÃO
Em Três Barras, de acordo com informações do Corpo de Bombeiros, houve apenas duas ocorrências registradas, para retirada de árvores da pista. Em Bela Vista do Toldo, o fenômeno destelhou algumas casas, mas os prejuízos maiores foram na zona rural, devido às árvores caídas na rede de energia elétrica do município. Até a tarde de ontem, algumas comunidades ainda estavam sem energia.
Monte Castelo teve 270 edificações atingidas, com pelos menos dois feridos, sendo uma vítima de infarto e 40 desalojados.
Para quem teve árvores nativas arrancadas em sua propriedade a gerência regional da Fundação do Meio Ambiente (Fatma) faz um alerta: é preciso regularizar a madeira para poder utilizá-la. “É preciso que eles regularizem a situação, até mesmo porque o transporte até uma serraria, por exemplo, precisa estar documentado”, esclarece a bióloga Mariane Murakami da Silva.
A Fatma, segundo Mariane, está recebendo inúmeros pedidos de informação sobre a regularização desde terça-feira, mas para que os proprietários possam aproveitar a madeira, obrigatoriamente, devem entrar com projeto junto ao órgão.

NÍVEL NORMAL
A chuva deixa as comunidades ribeirinhas apreensivas. A altura do rio Canoinhas, segundo informações do 9.º Batalhão de Bombeiros, ainda não é preocupante. Medição realizada ontem à tarde constatou que o nível de água é de aproximadamente 4,4 m. Quando atinge 5,7 m a situação começa a preocupar.
Entre segunda-feira, 7, e ontem, a estação meteorológica de Major Vieira, registrou choveu 109 milímetros. O volume só é menor que o registrado em Urubici, no Planalto Sul, e Rio do Oeste, no Alto Vale do Itajaí.

Tempo deve permanecer instável no final de semana
Chuva permanece e risco de ventos fortes persiste: comunidades ainda estão sem luz

Oficialmente em situação de emergência, Canoinhas ainda conta os prejuízos causados pela forte chuva da madrugada de terça-feira, 8. Segundo dados oficiais da Defesa Civil do Estado, 310 edificações foram afetadas em Canoinhas e o município espera o reconhecimento do decreto para receber ajuda do Governo do Estado. “Cerca de 150 pessoas nos procuraram para receber ajuda, como lonas para cobrir as residências”, afirma Felipe Davet, coordenador da Defesa Civil no município.
Em decorrência do vendaval, o Corpo de Bombeiros também recebeu pedidos para atender a mais de 40 casos, mas, na maioria das chamadas, o auxílio era prestado também para os vizinhos, por isso, de acordo com a entidade, não foi possível precisar a quantidade exata de pessoas atingidas. Quatro dias depois do fenômeno, de acordo com Davet, a situação agora é estável, agravada apenas pela falta de energia elétrica nas residências do interior do município.

SITUAÇÃO CRÍTICA
Em toda a região, até a tarde de ontem os problemas com falta de energia elétrica persistiam. Segundo o chefe da agência de Canoinhas da Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc), Osvaldo Roberto Romanowski, a situação é crítica, porque os estragos provocados pelo temporal ainda são incalculáveis. “Estamos trabalhando em 10 equipes, praticamente sem parar, e não conseguimos arrumar tudo”, diz.
Romanowski conta que mais de 30 postes foram arrancados e a quantidade de fios atingidos por galhos de árvores não pode ser precisada. Em algumas comunidades do interior, como Serra das Mortes, Barra Mansa e Rio d’Areia a energia ainda não foi restabelecida. “Se o problema tivesse acontecido somente aqui, nós teríamos reforços, mas como aconteceu em toda a região, falta pessoal para fazer o conserto”, explica. Diante da situação, o alerta para que as pessoas não se encostem a fios caídos permanece. “Pode ter corrente elétrica, então é perigoso. Não queremos nenhum acidente deste tipo”, esclarece.

O QUE ESPERAR DO TEMPO?
A chuva que cai sem cessar desde o domingo, 6, promete mais uma vez aparecer durante o final de semana na região. De acordo com previsão divulgada pelo Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina (Ciram) uma leve melhora poderá ser sentida hoje na região, quando as precipitações serão intercaladas com momentos em que o sol aparecerá. Amanhã e no domingo, 13, no entanto, o tempo fecha mais uma vez, mas os fenômenos previstos para estes dias são menos dramáticos que os enfrentados no começo da semana.
As temperaturas amanhã oscilam entre 13 e 19° C, com rajadas de vento que podem chegar aos 30 Km/h, com chuva durante o dia todo. Para o domingo, a oscilação é maior, entre 11 e 22° C, e no início e no final do dia o sol poderá aparecer. Com precipitação acima de média no mês de agosto e também maior que a expectativa neste começo de outubro, a instabilidade é preocupante na região (acompanhe previsão para próximos meses ao lado).

Matérias veiculadas hoje, 11 de setembro de 2009.

Correio do Norte

Quem lê, sabe.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Elas querem espaço!






Na construção civil mercado é aberto aos poucos; nos cursos acadêmicos de exatas, presença ainda é reduzida

Gracieli Polak
CANOINHAS

Passar pela frente de uma obra pode não ser mais uma tarefa tortuosa para as mulheres. Isso porque, aos poucos, a construção civil tem se aberto para profissionais do sexo feminino e mudando um conceito antigo da sociedade. Agora, obra é lugar de mulher sim, inclusive em Canoinhas.

Nas construções da cidade uma tendência surgida no Rio de Janeiro aparece com força e muda o cenário, antes somente masculino. Na capital carioca, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) lançou um curso específico para formar mulheres para trabalhar em diversas áreas da construção civil e promove sua incursão no mercado de trabalho. Em Canoinhas elas se aventuram no ramo buscando conhecimento por conta própria, enquanto uma nova geração busca espaço nas cadeiras de cursos universitários historicamente masculinos, como engenharia.

No meio do universo de trabalho masculino, mesmo em meio às dificuldades de adaptação e reconhecimento dos colegas, de uma coisa elas têm certeza: “com competência, seu lugar se garante, independente do sexo”.

A CHEFE DA OBRA
Com um sorriso no rosto e um capacete na cabeça, a contramestre das obras do Instituto Federal de Santa Catarina comanda mais de 50 homens e coordena o trabalho na construção grandiosa empreendida no bairro Campo d’Água Verde, que em poucos meses abrigará centenas de estudantes. Aos 33 anos de idade, Mariléia Vieira Domingos se prepara para ser mestre de obras na construtora em que trabalha há dois anos e, na hierarquia do local de trabalho, só tem um subordinado. “Eu mando nessa obra”, fala, empolgada.
Enfermeira por formação, Mariléia não se encontrou profissionalmente em sua área e, entre um emprego e outro, no comércio ou no varejo, acabou na construtora. “Eu comecei a trabalhar como zeladora. Em três meses eu já era apontadora da obra”, conta. Curiosa e interessada pelos problemas do trabalho, ela começou a ganhar espaço e, com o surgimento da construção em Canoinhas, foi convidada para vir para a cidade, com o propósito claro de ser preparada para se tornar a única mestre de obras da construtora. “Quando surgiu a oportunidade de vir para Canoinhas, como contramestre, eu aceitei na hora. É uma ótima oportunidade de crescer no ramo”, explica.
A contramestre, que nunca pensou em trabalhar nesta área, afirma que, no entanto, a adaptação dos homens à chefia feminina não foi tão rápida como sua ascensão profissional, fator responsável por algumas situações incômodas na profissão. “Foi preciso ter muita força de vontade, porque homem já é um tipo complicado. Peão de obra, então, é mais ainda, mas foi preciso me impor. Hoje eu tenho uma equipe formada, que respeita meu trabalho e meu comando”, diz.

VAIDADE?
Sempre de capacete ou de boné, uniforme da empresa e sapatões que contrastam radicalmente com uma das paixões femininas, vaidade na profissão de Mariléia é um artigo de luxo, que ainda afasta muitas mulheres do trabalho pesado, de sol a sol. “Eu queria montar uma equipe só de mulheres aqui em Canoinhas. Cheguei a entrevistar várias, mas quando a realidade aparece, muitas caem fora. O capacete, a botina, a roupa suja ainda assustam”, diz. Ainda assim, na construção do IFSC há duas mulheres sob seu comando: uma apontadora e uma ajudante de pedreiro.

Ainda que no uniforme da obra, “mulher é sempre mulher” e por isso, todo pequeno cuidado não é frescura. “Protetor solar tem de passar sempre e de vez em quando, também um cremezinho. Durante a semana eu não sei ficar sem um boné na cabeça, mas durante as folgas isso muda”, revela Mariléia, que pretende voltar a estudar para crescer ainda mais na profissão. Em breve, assim que a obra em Canoinhas terminar, ela volta para Joinville, onde mora, e começa um curso técnico em Edificação, ou a faculdade de Engenharia Civil. “Não saio mais daqui não. O meu trabalho agora é na obra, só preciso me aprimorar sempre”, conclui.

PRESENÇA REDUZIDA
Com mercado sempre garantido, a carreira universitária nas profissões consideradas masculinas passa a ser considerada por um número cada vez maior de mulheres, mas ainda com restrições: mulheres ainda são unanimidade em algumas áreas da saúde, como Enfermagem, Nutrição e Psicologia, aonde a proporção feminina chega a 100% nas universidades.

Micheli Seleme é uma das poucas mulheres que passam pelas salas de aula dos cursos de exatas das universidades brasileiras. Formanda do curso de Engenharia de Telecomunicações da Universidade do Contestado (UnC), ela é a primeira mulher a se formar no curso em Canoinhas e, na sala repleta de homens, apenas mais duas mulheres a fazem companhia. O interesse pela área surgiu ainda no colégio, quando os celulares começaram a se popularizar e a internet também começou a ganhar corpo no País. “Eu sempre fui muito curiosa e queria saber o que estava por trás das coisas, como tudo funcionava”, diz.

Aos 16 anos, Micheli entrou na faculdade de engenharia e teve de batalhar por seu espaço em meio à maioria absoluta de homens. “No começo eu tive resistência mesmo dentro do curso, mas com o tempo a situação melhorou e hoje não existe mais”. Com mercado de trabalho aberto para a profissão, Micheli pretende arriscar construir uma carreira em uma cidade maior, com uma resposta pronta para quem demonstrar preconceito contra a “invasão” feminina. “Se você mostrar competência, independente de ser homem ou mulher, você vai ser reconhecido”.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), independente de executar as mesmas funções que os homens, as mulheres ainda recebem cerca de 10 % a menos que os colegas do sexo masculino.

Matéria veiculada hoje, 28 de agosto de 2009.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Passado. Presente... Futuro?

"O plano era sair sem rumo com meu colega, como já fizemos uma vez (ou duas, quem sabe três). Mas, como quase tudo que a gente planeja, não deu certo.
E como quem não tem cão caça em Bela Vista..."

De colonos a empreendedores rurais

Evolução agrícola foi rápida, valorização do agricultor nem tanto; Passado, presente e futuro da base do Brasil falam sobre a vida no campo

Gracieli Polak
BELA VISTA DO TOLDO/CANOINHAS

“Antes quem trabalhava no campo era chamado de colono. Hoje nós somos chamados de agricultores, mas, estamos em busca de um dia nos tornarmos empreendedores rurais. Esse é o futuro de quem trabalha na roça: adquirir conhecimento, melhorar sua produção, aumentar sua qualidade de vida, ser um empreendedor dentro de sua propriedade”, defende o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Canoinhas, Edmar Padilha, ao falar da classe que defende e que amanhã, 25 de julho, comemora seu dia.
Da capoeira cortada a facão à utilização de implementos que preparam a terra do preparo à colheita, cerca de três gerações de colonos, agricultores ou empreendedores rurais produziram grande parte das riquezas do Planalto Norte. Entre as extensas plantações de soja e de milho e as pequenas, mas numerosas, lavouras de fumo, 23% da população da região se mantém no campo e alimenta não só um dos segmentos mais rentáveis da economia da região, mas também a mesa de uma população ainda maior. Com maquinário e tecnologia avançados, a tendência, segundo especialistas no assunto, é que a agricultura brasileira seja ainda mais representativa no mundo, com produções recordes e melhor aproveitamento do solo, no entanto, nas projeções de mercado, a figura do agricultor ainda é negligenciada. Mas é no campo, no suor da lida diária, que os alimentos presentes na mesa dos brasileiros são produzidos há séculos.

PASSADO EDIFICANTE
“Não tem explicação o quanto era diferente do que é hoje. Essa nossa luta na lavoura era muito custosa”, diz o agricultor aposentado Porfírio Iarrocheski, morador da localidade de Rio Bonito da Imbuia, interior de Bela Vista do Toldo. Aos 74 anos de idade, “quase isso de lavoura”, o agricultor viu crescer e se desenvolver seu ramo de atividade e, ao lembrar o trabalho naquela época o “contador de causos” é capaz até de fazer duvidar jovens acostumados com as facilidades da atualidade.
Iarrocheski conta que na primeira vez que veio para Canoinhas, aos 11 anos de idade, acompanhou o irmão que trouxe uma “carrada” de erva-mate para comercializar na cidade. Na viagem que durou um dia para a ida e outro para a volta, muitas novidades assustaram o jovem colono, como o rádio, que o deixou chocado. “Mas eu levei um susto, parei e perguntei para o meu irmão o que que era aquilo. Não sabia que existia”, se diverte.
A erva produzida artesanalmente em carijos e barbacuás, as lavouras consorciadas, com o feijão malhado a cambau (em uma lona no chão, com varas), o trabalho de dias ou até semanas para a plantação de um único hectare de terra eram realidade na região, interligada com Canoinhas por uma estrada aberta a enxadão pelos colonos. “Ás vezes chegava a juntar de 50 a 60 carroceiros no mercado. Ninguém aqui tinha condução, nem mesmo os mais abonados. Se precisava ir até algum lugar ia de cavalo ou carroça, não era fácil como é hoje”, explica, mas defende. “Dava um trabalho desgraçado, mas não era ruim não. Aquele era o tempo da erva boa e a gente sempre colhia bastante, muita abóbora no meio do milho”, relembra.
Aposentado desde que completou 60 anos de idade, Iarrocheski foi diminuindo o ritmo de seu trabalho. Do passado sofrido no tempo que o cultivo da terra era artesanal, para o colono, sobrou muito orgulho de sua luta e o gosto pelo cultivo e pelo cuidado. “Para quem gosta de criação, o berro de uma vaca é uma alegria. Não tem explicação, mas com a idade, fica mais difícil administrar tudo”, diz. Criado no trabalho braçal, o agricultor passou a vida entre arados e implementos puxados a tração animal e hoje, com a idade mais avançada, arrenda suas terras para os agricultores. Mas o tema recorrente de suas conversas é o trabalho no campo, como o realizado pelo amigo José Oldemar Ossowski.

PRESENTE CONSOLIDADO
De aparência tranqüila e com olhar voltado para suas terras, Ossowski, que produz soja, milho, feijão, fumo, leite e gado de corte pertence a uma geração diferente da de Iarrocheski, mas partilha muitas discussões com o antigo agricultor. Morador da comunidade de Lagoa do Sul, Ossowski começou a trabalhar na terra também bastante jovem e aprendeu a plantar usando arados a cavalos, até que, aos poucos, o maquinário começou a ser adquirido. Desde a aquisição das máquinas, segundo ele, o trabalho ficou menos árduo, mas isto não significou grande facilidade para cultivar as lavouras. “É claro que diminui o trabalho, o tempo de plantio, mas trouxe novas preocupações. Hoje o agricultor tem de ter conhecimento para trabalhar com as máquinas, com agrotóxico, com adubos. Tem de se aprimorar e ainda torcer para que seu trabalho seja valorizado”, ressalta.
Da mesma geração de Ossowski, o agricultor Arnaldo Mielke também conheceu duas etapas distintas da produção agrícola da região. Enquanto jovem, o trabalho foi no cabo da enxada. De uns anos para cá, as máquinas ocuparam seu espaço no campo. Na localidade de Rio d’Areia de Cima ele planta fumo, milho, feijão, além de produzir leite, e sente a diferença na evolução de sua profissão, mas não o suficiente para fazer com que deseje que o filho, Aurélio, siga o mesmo caminho que o dele. “Hoje o fato de você ter trator e implementos facilita muito em algumas culturas, mas, nas pequenas propriedades, o trabalho ainda é braçal, como no caso do fumo. E muitas vezes não compensa, porque o custo é muito alto para pouco retorno”, afirma.
Vindo de uma família com 11 irmãos, Arnaldo foi um dos quatro que permaneceram na mesma profissão dos pais e agora, para o filho único, espera “uma profissão melhor”, segundo ele, com maior autonomia. “Na hora de comprar adubo o preço é imposto, você tem de pagar, mas na hora de vender o produto, quem escolhe o preço é o comprador. A gente fica nas mãos dos outros e eu não quero isso para ele”, esclarece.

DE OLHO NO FUTURO
Aurélio Miguel Mielke, de 17 anos, filho de Arnaldo, pretende permanecer na agricultura, mesmo que o pai não concorde completamente com sua decisão. Familiarizado com o trabalho rural desde pequeno, Aurélio conheceu a lida de uma maneira bem diferente da que do pai e embora o cultivo de fumo ainda demande uma grande carga de trabalho manual, a mecanização na propriedade dos Mielke acontece de larga data. Para se especializar no cuidado da propriedade que um dia será sua e para atender aos desejos do pai, Aurélio pretende cursar Agronomia ou Medicina Veterinária, mas não agora. “Eu não quero fazer vestibular agora, sair de casa. Acho que um pouco mais para a frente eu posso fazer isso”, conta. Mas nem todos os jovens da mesma comunidade pensam assim e grande parte não quer permanecer na agricultura, como o primo de Aurélio, Everton Renam Mielke. “Eu não quero ficar plantando fumo não. Quero estudar e ter uma outra profissão, mais valorizada”, explica.

QUE FUTURO?
Em meio à alta demanda de jovens que largam a agricultura para viver na cidade, o questionamento em relação ao futuro é pertinente, mas não desanimador. Para as entidades de classe, ele está nas mãos dos jovens agricultores interessados em uma nova forma de produção: a empreendedora. “Estudos mostram que agricultores com condições melhores dão mais perspectivas para os jovens permanecerem no campo, o que faz com que haja melhoria na produção, na qualidade de vida, e que cada vez mais jovens desejem permanecer no meio rural”, fala o pesquisador Milton Luis Silvestro, da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri).
Para Silvestro o grande problema da evasão do jovem do campo está entre a vontade de permanecer e a construção de um futuro na agricultura. “Faltam políticas públicas para fortalecer a profissão, para dar melhores condições de vida e rentabilidade”, defende.
Atuando nesta linha, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) promove cursos estimulando a formação de empreendedores rurais para agregar mais valor aos produtos rurais. Em Canoinhas, as aulas começaram em junho e criam um novo horizonte para o setor, já percebido pelos agricultores, como Ossowski. “O futuro está na transformação do colono em empreendedor rural. Um litro de leite é vendido aqui na propriedade por R$ 0,50, enquanto um quilo de queijo, que leva aproximadamente seis litros de leite para ser feito custa bem mais, como eu comprovei comprando esses dias em uma associação de produtores. Beneficiar faz com que o produto agregue renda e este deve ser o futuro da agricultura familiar”, defende.

Matéria veiculada na sexta-feira, 24 de julho.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Vamos falar sobre sexo?



PAPO CABEÇA SOBRE SEXO
Adolescentes falam de certezas e incertezas da vida

Gracieli Polak
CANOINHAS

No documento, menor de idade. Na cabeça dos pais, eternas crianças. Na deles mesmos, donos de si. Quem disse que ser adolescente é fácil? Na falta de definições para este período de transição, rótulos coloridos e extravagantes como o universo que os cerca surgem em diversas situações e várias formas. Para conversar sobre temas que fazem parte do universo teen, o CN reuniu um grupo de jovens e propôs um debate sobre questões pertinentes a esta fase da vida, em que as dúvidas são ainda mais latentes que as certezas.
Com idades entre 16 e 17 anos, alunos do terceiro ano do Ensino Médio, Eduardo, Kaio, João, Gabriel, Caroline, Marina, Letícia e Amanda estudam no Colégio Realização, são muito diferentes entre si, mas compartilham dúvidas comuns. Enquanto alguns sabem exatamente o que esperam do futuro, outros não têm definição alguma. Com temperamentos também distintos e concepções diferentes, eles conversaram sobre sexualidade, conhecimento sobre métodos anticoncepcionais, relacionamento com os pais e o resultado disso misturado, tudo ao mesmo tempo e agora.

Na família, mais que informação sobre sexo

Diálogo com pai e mãe é focado na preservação da saúde

Que assunto pode provocar mais rubor em meninas e meninos que temas relacionados à sexualidade? Do primeiro namoro às primeiras relações sexuais, o assunto ainda visto como tabu pela sociedade é natural e inerente ao ser humano. Então, porque não conversar sobre ele?
Segundo uma pesquisa divulgada em julho pelo Ministério da Saúde, a vida sexual dos brasileiros está começando cada vez mais cedo. Aos 15 anos, cerca de 27% dos jovens já iniciaram suas relações entre lencóis. Se os jovens conhecem o sexo cada vez mais cedo, o debate em casa sobre o assunto deve começar igualmente mais cedo, segundo profissionais da área, para que situações de risco sejam amenizadas.
Para as meninas, o diálogo com os pais tem grande importância e, em qualquer situação, o apoio da mãe deve ser requisitado, porque amizade entre mãe e filha deve ser priorizada. “Eu conto tudo para minha mãe, peço orientação, quero saber o que ela pensa sobre muitas coisas. Para mim, mãe tem de ser minha melhor amiga e é essa relação que eu tenho com ela”, explica Marina, que tem os pais separados.

ESCOLA COMO MESTRE

Os adolescentes ouvidos pelo CN dizem que sexo é assunto para ser discutido na escola, sim senhor. “Nós tivemos aula de saúde logo no começo do Ensino Médio e deu para aprender muita coisa, inclusive os métodos anticoncepcionais. È uma informação orientada, debatida e, claro, tem uso prático na vida”, esclarece Kaio.
Embora afirmem ter bom relacionamento com os pais e abertura para falar sobre sexualidade em casa, a maior parte do grupo acredita que só a informação aprendida na escola já é suficiente. “Tudo é bem explicado na escola. Não sobra dúvida, ou se sobra é pouca coisa, para perguntar para a minha mãe”, defende Marina. “Mas também não dá para falar tudo, né? Eu não vou chegar para ela e dizer que fiquei com tal garoto, ou alguma coisa assim, só quando é alguma coisa que realmente tem importância”, reitera. “Até mesmo porque nem sempre é uma boa ideia contar tudo para mãe. Eu muitas vezes, em assuntos assim, falo com meus irmãos”, afirma Gabriel.

IRMÃOS COMPANHEIROS


Caçula na casa, Gabriel conta encontrar um caminho aberto de diálogo com o irmão e a irmã mais velhos, situação semelhante à de Eduardo, que também procura orientação com os irmãos. No grupo, quem não tem irmão mais velho, apela para o mais novo. “Eu prefiro conversar com meu irmão, que é mais novo que eu. Tudo bem que tenho abertura com minha mãe, também, mas é mais fácil”, conta João.
Entre pais e irmãos, ainda sobra muito espaço para os amigos. “Eu tenho irmãos mais velhos, mas é bom conversar com os amigos, porque a gente tem a mesma idade, às vezes dúvidas parecidas”, defende Letícia. Para o grupo, a conversa e a discussão entre o círculo de amizades é esclarecedora, mas não substitui o diálogo em família. “Minha mãe para mim é tudo. Eu posso até conversar com minhas amigas, mas não vou esconder as coisas dela, até mesmo porque se tem alguém que vai poder me dar orientação, é ela”, confirma Carol.

PALAVRA DE PROFISSIONAL

De acordo com a psicóloga Ana Carolina Zan, de Canoinhas, o interesse por assuntos relacionados à sexualidade é absolutamente normal nesta fase da vida, porque à medida que as primeiras mudanças começam a ser sentidas no corpo dos adolescentes, surgem as primeiras dúvidas. “Para esclarecer estas dúvidas, a participação dos pais é muito importante. Mas ela deve ser ponderada, para que os filhos não se sintam sufocados”, esclarece.
Segundo a psicóloga, a relação de cumplicidade em família deve ser estimulada por pais e filhos, mesmo que a fase vivenciada pelos adolescentes não seja amena. Ana defende que a informação a que os adolescentes têm, seja na escola ou nos grupos de amigos é, sim, importante, mas deve ser contextualizada. “Abertura em casa é essencial para que eles não vejam o sexo como uma coisa suja, proibida. Muitos adolescentes escondem sua sexualidade dos pais por pensar desta maneira e, com diálogo, eles podem ter uma nova concepção, que provavelmente vai gerar mais confiança e, inclusive, responsabilidade”, alerta.
Entre as dúvidas de pais que, segundo Ana Carolina, não conseguem enxergar que os filhos cresceram e que estão passando por tal fase de transformação, muitas vezes surgem situações problemáticas. “Desmistificar os assuntos relacionados à sexualidade, conversar abertamente, quebrar os tabus e orientar os filhos são atitudes que vão, com certeza, fazer a diferença nas escolhas deles”, orienta.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Mulher no volante, perigo constante?

“Sim, eu estou orgulhosa.
Consegui minha Carteira Nacional de Habilitação faz umas poucas semanas e agora acho que posso dominar o mundo. Pena que ninguém acredita nisso. Fora meu pai, que é meu único entusiasta (entusiasta?) no trânsito, além do Totonho que ainda não sabe o que é isso, ninguém mais me cede o carro. As pessoas não acreditam que eu sou capaz de dirigir bem. Para ser sincera, eu também não acredito que eu dirijo bem, mas eu tento, assim como uma legião de mulheres que, como eu, conseguiu seu documento, mas ainda enfrenta a descrença de muitos homens.
Daí (e das minhas tias e primas que agora se veem como seres novos no trânsito) surgiu o CN Mulher desta semana.
Sai da frente, porque atrás vem gente. Bi-bi-bip!”


Mulher no volante, perigo constante?

Em quatro anos, número de mulheres no trânsito cresce 44%; envolvimento em acidentes é muito menor em relação aos homens
Gracieli Polak
CANOINHAS

Dois meses depois de completar 18 anos de idade, Scheila de Fátima Piechontcoski frequentou as aulas teóricas para conseguir sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e agora parte para a aprendizagem nas ruas. “Eu sempre quis ter minha carteira, porque acho muito importante poder se deslocar sem precisar depender de outras pessoas”, fala sobre a motivação para adquirir o documento tão logo a Lei permita.
De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), quando completa 18 anos, o cidadão está apto para se candidatar ao documento que permite a direção de veículos como carros e motos, mas esta não é uma informação nova. Novidade é a quantidade crescente de mulheres que buscam seu lugar em um ambiente até hoje predominantemente masculino.
De acordo com o supervisor de CNH, Jair José Kohler, um aumento da proporção de mulheres em busca da Carteira de Habilitação pode ser sentida diariamente na Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) de Canoinhas. Kohler, que é o responsável pela aplicação do exame teórico aos alunos das autoescolas, conta que, nas salas compostas por 20 alunos, aproximadamente 12 são mulheres, enquanto apenas oito são homens – e mais jovens. “Não é uma estatística oficial, mas é o que a gente pode notar na prática aqui na região”, explica. O supervisor salienta que, à medida que aumenta o número de mulheres estudando para conseguir a documentação, a faixa etária também aumenta. “Hoje está mais fácil comprar um carro e as mulheres sentem a necessidade de ser independentes, mesmo depois de alcançar certa idade. Elas voltam para a sala de aula para fazer a carteira”, conta.
Para Leoni Paulo, secretária de uma autoescola de Canoinhas, a independência no trânsito hoje chega mais cedo. Segundo ela, há muitas mulheres com idade mais avançada buscando o documento, mas é comum ver casos como o de Scheila, que logo após completar a idade necessária, correu atrás de sua permissão para dirigir. “Quando eu fiz a minha CNH, há dez anos, as mulheres eram absolutamente minoria na sala de aula. Tinha uma proporção muito maior de homens atrás do documento, mas hoje já sentimos equilíbrio”, afirma.

CATEGORIA B

Segundo dados do Departamento de Trânsito (Detran) de Santa Catarina, 2,49 milhões de pessoas possuem CNH no Estado. Deste total, 1,7 milhão pertencem aos homens, o que corresponde a 68,7% e deixa as mulheres com apenas 31,3% dos volantes, menos de 1/3 dos documentos. Até aí, predominância masculina, porque a quantidade total de condutores engloba todas as categorias previstas, inclusive C, D e E, que permitem a condução de veículos pesados, como caminhões e ônibus. É no trânsito leve, nas cidades, que as mulheres conquistam seu espaço.
Em Canoinhas, 8.580 pessoas possuem Carteira de Habilitação B, 4277 mulheres, o que corresponde a 49,8% das pessoas com permissão para dirigir exclusivamente veículos de passeio. No Estado, a proporção é equivalente: para 481,1 mil homens habilitados na categoria B, 461,6 mil mulheres nas mesmas condições. Seria um perigo constante?

SEGURO MAIS BARATO

Não, absolutamente. Uma pesquisa realizada pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) revela que os homens se envolveram em mais acidentes no País, nos últimos quatro anos. De 1,5 milhão de ocorrências notificadas de 2004 a 2007, 71% foram cometidas por homens, 11% por mulheres e 18% não foram informados, porque muitos condutores saem do local da infração antes da identificação. Tais dados, além de argumentos a favor da tomada do volante pelas mulheres, trazem outros benefícios.
Segundo a corretora de seguros Gladys B. Clasen, de Canoinhas, a mulher tem vantagens na hora de segurar seu veículo, mas é um desconto que não vem de graça. “As mulheres são mais cuidadosas, respeitam mais as leis de trânsito, os limites de velocidade, e isso acaba colaborando para que sejam beneficiadas”, afirma. A corretora alerta que há pesquisas que revelam que a quantidade de mortes ocasionadas por acidentes automotivos causadas por homens ao volante é muito superior à de mulheres, o que justifica o desconto concedido para as condutoras, que pode variar de caso para caso, mas gira em torno de 10%.

PRIMEIRA HABILITAÇÃO

Para Sônia Cristina Kluska Vieira, que aos 35 anos se aventura atrás de um volante, mais que um documento, a busca pela CNH se revela uma luta. Sem nenhuma experiência no trânsito como motorista, ela se recupera de uma luta de seis anos contra o câncer e, depois de concluir a faculdade de Artes, resolveu traçar novos objetivos. “Isso aqui pra mim é uma luta. Não tenho carro, não tenho moto, mas quero aprender a dirigir. E acho que estou aprendendo bem”, se diverte, endossando ainda mais as estatísticas de crescimento no número de motoristas.
Segundo dados do Denatran, em 2008 havia 45,1 milhões de motoristas registrados no País, 14,8 milhões do sexo feminino, o que significa 33% do total. Em 2004, 10,3 milhões de mulheres estavam habilitadas no País, um crescimento de 44% em quatro anos.


Matéria que será veiculada amanhã, 26 de junho de 2009.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

No recanto dos Paitra

“Às vezes é preciso encontrar pessoas como os Paitra para voltar a ter esperança.
O orgulho dos irmãos por aquela terra, pela casa que lentamente é melhorada, pelas quatro sacas de feijão que produziram não é uma coisa palpável, assim como a união e o amor que demonstraram. Simplicidade que transborda, que preenche mais que qualquer luxo.”

Regularização fundiária para o Planalto Norte
Secretário estipula que 70% das terras de Major Vieira estejam irregulares

Gracieli Polak
CANOINHAS/ MAJOR VIEIRA

Gente de sorriso fácil e muita disposição para trabalhar na pouca terra que possuem, os irmãos Silvano, Sandra e Rodrigo Paitra, agricultores da localidade de Colônia Santo Antônio, em Major Vieira, articulam o cultivo de diversas culturas em uma propriedade que para muitos não valeria tal esforço, de tão pequena. Moram com a mãe há 17 anos, na propriedade que o pai recebeu do antigo patrão. Com a morte do antigo dono e a perda dos bens, o terreno passou para as mãos de um banco e, agora, a família luta para conseguir documentar a propriedade da terra, argumentando usucapião.
No papel, a propriedade tem 23 litros de terra, mas, na prática, segundo os irmãos, não chega a tanto. Embora pequeno, o pedaço de chão rende. “Nós colhemos de tudo um pouco. Plantamos milho, feijão, batata doce, amendoim, repolho, cebola, aipim, abóbora e mais um monte de coisas. O que este chão é capaz de dar, nós plantamos”, explica Rodrigo, mostrando o pedacinho de terra que, segundo ele, estava preparando, à enxada, para plantar repolho. O irmão mais novo, assim como os outros, trabalha para outros agricultores e, nas folgas, se dedica à propriedade que, pelas mãos deles, aos poucos se desenvolve, com a diversidade que a pequena área exige.
Silvano explica com orgulho a evolução que a propriedade vive, sempre pelas mãos dos irmãos, que, em conjunto, até o poço da propriedade cavaram. “Quando nós chegamos aqui não tinha nada. Era um sertão. Destocamos tudo no braço, limpamos por conta”, revela Silvano, complementado por Sandra, que afirma que os irmãos nunca desistiram de cultivar no pequeno terreno, mesmo sem muitos recursos. Da união dos três com a mãe, os melhoramentos foram se tornando reais. Do lado da casa da família uma antena parabólica ocupa lugar de destaque no terreiro repleto de árvores frutíferas. “Faz três anos que a luz chegou aqui”, explica Antônia, a matriarca da família, entusiasmada com a tecnologia que chega, para ela, em ritmo rápido.
Com orgulho da terra que tem, mas sem a documentação, os Paitra hoje não têm acesso aos benefícios oferecidos aos agricultores familiares e estão à margem da agricultura comercial: plantam, de maneira consorciada, tudo o que é possível cultivar na propriedade. Situação compartilhada com outros agricultores, que além de ter pouca terra, não as tem regularizadas.

PROBLEMA LATENTE
Segundo o secretário da agricultura, meio-ambiente e fomento agropecuário de Major Vieira, Maurício Aristides Sobczak, não é difícil encontrar situações como a dos Paitra no município, porque cerca de 70% das propriedades rurais de Major Vieira hoje estão irregulares de alguma forma. Sobczak afirma que a estimativa é de que esta alta porcentagem seja motivada também pela inadequação das propriedades rurais ao Código Florestal Brasileiro, condição que, depois da adoção da legislação específica para Santa Catarina, poderia ser modificada. “É um problema sem precedentes, porque para regulamentar a terra o agricultor precisa averbar a reserva legal, o que inviabiliza, muitas vezes, a produção agrícola nas pequenas propriedades. Esta é uma realidade que poderia ser modificada com o Código aqui do Estado”, lamenta.
Independente da inadequação à Legislação Ambiental nacional, outras questões fazem com que as terras fiquem sem registro legal. Uma delas é a divisão, por meio de herança, de propriedades que antes pertenciam a um único dono, mas agora pertencem aos vários filhos. Ações em trâmite por uso capião, como a da família Paitra, representam uma parcela pequena da população agrícola, mas que, embora minoria deverá ser beneficiada pelo programa que agora toma corpo no Planalto Norte.

MDA APOSTA
De acordo com o delegado do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Jurandi Gugel, a regularização e a aquisição de terras agricultáveis para os pequenos agricultores são ações que o Territórios da Cidadania desenvolverá na região. Segundo Gugel, esse é um passo importante, porque ao mesmo tempo que regulariza a situação do agricultor no campo, possibilita a obtenção de crédito rural, como o Pronaf, financiamento a juro baixo. Mas esta é apenas uma das ações que o programa começa a colocar em prática na região.
No Território do Planalto Norte, as primeiras reuniões para definir onde os recursos, que contabilizam R$ 116,6 milhões, começaram a ser realizadas na segunda-feira, 27. A consultora técnica da Agência de Desenvolvimento Regional Integrado do Planalto Norte Catarinense (ADR-PLAN), Francielle Cristina Gaertner, coordenadora do fórum deliberativo que media o Território do Planalto Norte, explica que a prioridade, neste primeiro momento, são ações destinadas ao melhoramento da infra-estrutura da região. “A gente discutiu, na primeira reunião, questões relacionadas ao Programa de Infra-Estrutura (Proinf) que, por enquanto, se destinam exclusivamente ao meio rural. O programa vai propiciar um salto significativo na qualidade da população da região”, afirma Francielle, que explica que as ações envolverão diversos setores e que, na área fundiária, imediatamente terá um projeto piloto implantado em seis municípios do território, inclusive em Major Vieira.
Para a agricultora Sandra, que tem esperança que devagar a situação da propriedade se resolva e que a produção no sítio da família cresça, esse é um grande passo. “Quando essa terra aqui for nossa de vez, vai ser ainda melhor. Trabalhando a gente consegue arrumar tudo”, acredita.

Matéria veiculada na sexta-feira, 8 de maio.